Boca de Cena

 / Créditos:
25/07/2011

Bruno Perillo

Ator se divide entre peças com sessões no mesmo dia


Ele estreou na televisão em grande estilo: como chef de cozinha de uma novela do mestre Manoel Carlos, “Viver a Vida”. Mas os autores consagrados não lhe assustam. Desde que iniciou sua carreira de ator, em 1994 com o grupo TAPA, o ator Bruno Perillo já esteve em montagens de textos de Nelson Rodrigues, João Cabral de Melo Neto, Shakespeare, Brecht, e Tchecov.

Agora, sabe bem que o desafio é outro: encenar o pensamento feminino de duas atrizes e autoras contemporâneas: Luciana Carnieli, autora de “Absinto”, e Rachel Ripani, que assina “Cabaret Luxúria”, ambas as peças em cartaz no espaço Parlapatões. Vale dizer, encenar e contracenar com elas no mesmo dia! Uma sessão seguida da outra.

Em entrevista, o ator fala sobre a rotina puxada no teatro, sobre as duas peças, televisão e o prazer de estar em plena atividade no teatro.

Um mesmo teatro e duas montagens. Como tem sido a rotina com duas peças?
Não é sempre que podemos fazer duas peças - e ainda mais na mesma noite e no mesmo teatro. Tenho desfrutado o máximo que posso. Viver dois personagens tão diferentes, de universos tão distantes um do outro, é um exercício fascinante para o ator: mexe com as energias de uma maneira particular. A rotina, pra mim, é a concentração e o foco máximos na primeira peça como se fosse a única, porque a excitação é sempre grande! Quando acaba, aí sim começo a entrar na outra. Esse é o único momento ruim, pois não dá tempo de curtir o pós-peça, que é tão bom - já tenho que me preparar para a segunda sessão.


Tanto “Cabaret Luxúria” quanto “Absinto” falam de sedução. O que mais aproxima as duas montagens?

Exatamente. Ambas falam de sedução, mas cada uma por um viés próprio. É muito interessante esse detalhe em cada uma delas. Em “Absinto”, estamos num plano real, que se mistura com um plano onírico, e a sedução aparece de uma forma sutil, muito mais nos silêncios das duas personagens do que nas falas ou nas ações em si. É uma sedução lírica, onde o amor é vislumbrado, mas não se atinge completamente, e há também os medos, as inseguranças, e é esse contraste que é tão lindo no espetáculo. É uma peça de cores suaves e poéticas... Já no “Cabaret Luxúria”, estamos no Inferno, universo mítico, onde tudo é mais cru, mais apimentado, mais físico, e a sedução se transforma em atração, sexo, rompimento - ou seja, partimos para um desdobramento dessa palavra "sedução" - e depois temos as músicas, as canções, e uma banda para acalorar ainda mais a cena, mas sem perder o espaço da poesia e do amor também.

Em “Cabaret” você canta, dança... o que a montagem lhe exigiu de preparo?
Exigiu uma bela caminhada! Primeiro, aulas de canto, depois a preparação vocal específica para a peça, com todas as canções da peça, depois o trabalho coreográfico, buscando o rigor e a limpeza gestual necessária. Então, partimos para o trabalho de ator na cena, para criar as ações das cenas, junto com o elenco - e sem esquecer, claro, o trabalho de direção e as versões das canções! Foi uma maratona, mas deliciosa!

E quais caminhos você percorreu para dar o tom do zelador de “Absinto”?
Esse zelador é um personagem instigante, pois ele é o oposto da imagem que a gente tem do que é um zelador. Esse foi nosso ponto de partida. Esse homem tem um lado escondido, de um ser humano interessante, surpreendente, que é capaz de cativar e seduzir a personagem da Lu Carnieli, que é uma atriz. Ele é educado, comedido, e ao mesmo tempo intelectualmente preparado. Ele parece tímido, mas tem as costas tatuadas por sete tatuagens que ele mesmo criou! Então esse cara é movido por essas contradições do seu ser, que também o paralisam - mas no fundo ele tem enorme consciência dos seus passos e atos.

Também nos dois casos, são peças escrita por mulheres (você participar da criação de “Cabaret”). As mulheres, afinal, conseguem também dialogar com os homens quando o assunto é amor?
As mulheres conseguem e muito falar do amor. Tanto a Luciana Carnieli quanto a Rachel Ripani trazem à tona facetas diferentes e complementares do que há para se falar do amor - e claro, trazendo a visão feminina do amor, que é linda. Do amor e de tudo o que ele traz junto. É legal observar também como cada peça vê o homem nesse meio-de-campo! Para longe de qualquer feminismo ou machismo, aparecem nas 2 peças personagens masculinos criados por mulheres - duas autoras - mas que ao ganharem vida pelo ator, transformam-se numa mistura das visões. E isso é riquíssimo para as montagens!

Como foi a experiência de atuar em uma novela de Manoel Carlos, “Viver a Vida”? Isso impactou no teatro?
É uma experiência forte e marcante. Muita visibilidade e também muito importante para a carreira. Quando voltamos ao teatro estamos mais fortes, o público te reconhece, e essa é a vida do ator – trabalhar, trabalhar e trabalhar, sempre buscando se superar e procurando novos desafios para o seu corpo e sua mente. E a TV, o teatro e o cinema exigem particularidades que devem ser exercitadas e concretizadas - são os veículos de existência do nosso ofício.

Tem outros projetos para esse ano?

Sim! Primeiro de tudo, dar sequência às duas peças, que não vão parar. E tenho outros projetos de teatro para acontecerem, tanto como ator quanto diretor.