10/09/2012
A Moringa Quebrada
Gustavo Paso adapta texto alemão do século XIX
Uma misto de Reino de Avilan (da novela "Que Rei sou Eu"), de “O Estranho Mundo de Jack”, e de “A Família Adams”. É assim que o diretor Gustavo Paso define “A Moringa Quebrada”, espetáculo que se passa na fictícia cidade de Upa Cavalo, que se vê envolvida em uma comédia de suspense e corrupção. Perdida no tempo e no mapa do Brasil, esta cidadela tem habitantes estranhos, híbridos de humanos com animais. Há tempos Gustavo tem o desejo de inventar seu mundo particular, com conceitos próprios e problemas essencialmente brasileiros.
“Esse texto foi um presente que chegou para mim. A partir dele, está nascendo um segundo espetáculo que terá como título o nome da cidade. Nele, terei liberdade para criar o que minha imaginação mandar. Na ‘Moringa Quebrada’ os atores não se caracterizam com figurinos metade animal, mas nessa nova peça isso vai acontecer”, diz Paso.
Escrita entre 1803 e 1806 pelo alemão Heinrich von Kleist, a montagem mistura comédia e suspense, assim como “Em Nome do Jogo", outra peça dirigida por Paso em cartaz no Rio, encenada por Marcos Caruso e Erom Cordeiro. O diretor, que é fã dos gêneros, cita Rubem Fonseca como seu autor brasileiro favorito.
“Temos poucas peças de suspense no Brasil e percebo que agrada bastante o público. O que importa é levar ao palco boas histórias, independentemente do gênero. Algumas pessoas acham que no teatro o público precisa se pronunciar, seja no riso ou no choro, para que o espetáculo seja bom. No cinema é diferente, uma boa história de suspense pode deixar espectador sem se mexer na cadeira e sair de lá amando o que viu. No teatro deveria ser a mesma coisa”.
O grande mistério de “A Moringa Quebrada”, que é encenada pela Cia Teatro Epigenia, gira em torno do juiz do tribunal local, o Juiz Adão, um homem escorregadio e mentiroso que comete um crime que será julgado por ele mesmo. Mas as coisas começam a mudar quando recebe uma inesperada visita de seu superior, o Conselheiro Magno: “Na Alemanha, quase não há corrupção entre juízes, já no Brasil, é muito comum, acho que é um mal nosso. Apesar de ter sido escrito no começo do século XVIII, o texto é muito atual”.
Na adaptação de Gustavo Paso, os nomes fictícios dos lugarejos holandeses, “Holla”, “Huisum” e “Hussahe”, que no original de Kleist imitam gritos de cocheiros com seus animais, viram “Upa Cavalo”, “Eia Boi” e “Xô Bode”. O povoado holandês do original vira um povoado pernambucano e a mudança de ambiente modifica tudo que está dentro dele. Se a história original se passa nas proximidades do Reno e às margens do Vecht, a adaptação a transfere para as margens do Rio Tanto Faz, nas proximidades do Ipojuca. A neve deixa de existir para dar lugar ao barro verde. Assim, a floresta vira uma caatinga muito peculiar.
“Quando dirigi o espetáculo ‘Ariano’, mergulhei na vida e na obra dele durante oito meses. Tenho um grande conhecimento da arte nordestina e resolvi direcionar a história para esta região. Criei nome de rios e do padroeiro da cidade, um santo que não existe. Esse personagem nasceu do cruzamento entre um homem e uma égua. É tudo uma grande brincadeira, tenho um universo amplo para explorar. Acredito que os nordestinos são tão existencialistas quanto os franceses, é um povo cheio de poetas”.
Veja trechos do espetáculo “Em Nome do Jogo”
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