Reportagens
13-10-2009 ////////
Teatro.com.br
Dramaturgia cai de vez na web e muda sua relação com o público
Muitos dizem que a magia do teatro está no jogo ao vivo com a platéia, no efêmero. Assistir, portanto, uma peça pela Internet é teatro? Para a atriz e diretora Renata Jesion, com certeza. Desde 2008, ela comanda o Teatro Para Alguém, projeto via internet que disponibiliza montagens de pequena ou longa duração para serem vistas de qualquer lugar e a qualquer hora, gratuitamente. “A idéia é democratizar a cultura de forma abrangente,” defende ela. “Queremos fazer com que o teatro alcance pessoas que nunca viram uma peça na cidade delas ou que tem pouco acesso a atividades culturais.”
Tudo funciona dentro de uma casa, literalmente. Como as apresentações e filmagens acontecem na sala de estar de Renata, o site segue este formato, com espetáculos divididos por cômodos. A Grande Sala, a Sala de Estar e o Sótão estão reservados para as produções que estão em cartaz. No Porão, estão arquivadas antigas apresentações. No Hall, contatos e informações adicionais. Já o Quarto traz memórias e lembranças da casa, com imagens das encenações, enquanto o Banheiro é onde o público registra seu comentário.
As produções estréiam ao vivo e permanecem em cartaz durante um mês - com exceção da miniemsérie “Corpo Estranho”, de Lourenço Mutarelli, que tem duração de até dois meses, com atualizações dos episódios duas vezes por semana. Por lá já passaram produções como “Por Conta da Casa”, de Sergio Roveri, "121.023J", da própria Renata, “Socorro, Que é Muito Respeitadora”, de Marta Góes, entre outros. O mais recente é “Doido”, monólogo de Elias Andreato, a primeira das montagens em cartaz simultaneamente na web e no Teatro Eva Herz (tel.: 3170-4059, para maiores de 14 anos, até dezembro). Para a versão digital, a peça sofreu pequena edição para chegar a cerca de 30 minutos de duração (tem originalmente 60’) e, após a estréia ao vivo, está disponível dividida em atos de 10 minutos.
O diálogo entre o teatro e as mídias digitais não é novo. Muitas montagens já utilizaram diversas ferramentas tecnológicas, como transmissão ao vivo via skype, entre outras façanhas. Com uma pequena busca em sites de vídeos, é possível encontrar inúmeras gravações, boa parte caseira e ruim, com trechos de espetáculos nacionais. Mas, de fato, o Teatro Para Alguém inovou por estar inteiramente focado na exibição via web, com narrativas e filmagens feitas especialmente para o formato digital. “Nossa grande preocupação é publicar montagens de qualidade e conteúdo, com nomes importantes da nossa dramaturgia”, afirma Renata. Outros artistas já embarcaram na tendência, como é o caso de Carolina Ferraz, que produziu, roteirizou e protagonizou curtas-metragens em que vive diversas personagens no projeto Histórias de Amor. Já Antonio Fagundes apostou no veículo digital para mostrar ao público o bastidor teatral, reunindo entrevistas com profissionais do ramo.
Para a diretora, a chegada do teatro na web trata-se de um caminho natural, já percorrido por outras artes. "Assim como a música, o teatro começa o seu processo de descoberta dentro da era digital.” Renata admite que se lançou em um universo até então desconhecido. “Nunca fui uma pessoa ‘internética’”, diz. “Mas Internet é a bola da vez. Começamos o projeto sem saber direito aonde ele ia dar, pois queríamos descobrir como usufruir desta mídia. Com quase um ano de funcionamento, me surpreendi como o canal foi bem aceito. Grupos de até outros países querem encenar no nosso site”.
Assim como as produções convencionais, o Teatro Para Alguém enfrenta o dilema do patrocínio. “A gente quer crescer, ampliar, mas não temos condições sem apoio de empresas”. Mas confessa que a relação com o patrocinador mudou com o sucesso do projeto. “Se antes as portas eram fechadas, atualmente já estamos sendo procurados por patrocinadores que querem entender essa brincadeira e fazer parte dela”. O site recebe cerca de mil visitas por dia – um dado que motiva investidores culturais. “É ter um Sérgio Cardoso lotado diariamente”, compara a diretora. Já em semanas de estréia, este número salta para até duas mil visitas por dia, sendo que aproximadamente 500 pessoas conseguem acompanhar a apresentação ao vivo.
Sobra tempo para o teatro convencional? “É claro!” A idéia é num futuro próximo estrear em São Paulo uma montagem que também será transmitida ao vivo, a temporada inteira. “A gente não está aqui para ofuscar o teatro clássico ou mudar o jeito de fazer, queremos ser mais uma porta para quem não tem acesso a ele.”
Teatro Para Alguém
www.teatroparaalguem.com.br
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